Neurociência, Saúde Mental & Comportamento

Como estudar neurociência: por onde começar e o que estudar

Como estudar neurociência: por onde começar e o que estudar

Sabe quando você lê um parágrafo inteiro, você recebe uma mensagem no celular e, ao voltar, não lembra do que acabou de ler? Ou quando esquece o nome de alguém segundos depois das apresentações, mas canta de cor o jingle de um comercial de TV antigo?

Se cenas assim despertam sua curiosidade, você está mais perto da neurociência do que imagina.

Estudar sobre neurociência é investigar como cérebro, corpo e ambiente se relacionam.

Esse caminho parte dos fundamentos: o que o campo investiga e como o sistema nervoso funciona; como se dá a atenção, memória, emoções e hábitos; e por aí vai.

Não importa se você dá aulas, advoga ou trabalha com design: o estudo do cérebro não é território exclusivo de médicos e psicólogos – e essa é uma das perspectivas mais interessantes desse campo.

Neste artigo, você vai entender o que a neurociência estuda, quem pode estudá-la e por onde começar. Também vai conhecer os conceitos fundamentais do campo, dicas para estudar por conta própria e livros para iniciantes.

E spoiler: você ainda vai aprender a reconhecer fontes confiáveis, a evitar neuromitos e conceitos pseudocientíficos e claro, a escolher entre curso livre, graduação e pós-graduação.

O que a neurociência estuda?

A neurociência estuda o sistema nervoso, formado pelo cérebro, pela medula espinhal e pelos nervos espalhados pelo corpo.

O objetivo é entender como essa rede participa do que pensamos, sentimos, aprendemos e fazemos.

Para um panorama mais amplo, vale compreender o que a neurociência estuda e conhecer suas principais áreas.

A neurociência é um campo interdisciplinar, construído no diálogo com áreas como:

  • Biologia, que explica células, genes e o funcionamento do corpo;
  • Psicologia, que investiga comportamentos e processos mentais;
  • Medicina, que estuda doenças e lesões do sistema nervoso;
  • Educação, que se interessa por como aprendemos;
  • Filosofia, que discute mente, consciência e livre-arbítrio.

Física, computação e linguística também entram na conversa. Ou seja: sua formação, seja qual for, pode ser um ponto de partida!

Quem pode estudar neurociência?

Qualquer pessoa curiosa pode estudar neurociência. Precisa ser médico para estudar neurociência? Não. Nem psicólogo, nem biólogo.

Professores, gestores, profissionais de RH, comunicadores, estudantes e pessoas interessadas em saúde mental encontram no campo respostas para perguntas do próprio cotidiano.

O que exige formação específica é outra coisa: diagnosticar, tratar ou prescrever. Essas atividades dependem de graduação na área da saúde e de registro profissional. Estudar é para todos. Atuar clinicamente, não.

Por onde começar a estudar neurociência?

Não existe uma sequência única ou obrigatória para se estudar neurociência.

Mas, se a dúvida é como começar a estudar neurociência, costuma funcionar ir do geral para o específico e do conceito para a vida real.

Etapa O que estudar Pergunta orientadora Onde buscar
Introdução O campo da neurociência e o sistema nervoso O que a neurociência investiga? Artigos introdutórios e o curso Introdução à Neurociência
Fundamentos Neurônios, sinapses e neuroplasticidade Como o cérebro se comunica e muda? Guias de sociedades científicas e livros-texto
Processos cognitivos Atenção, memória e aprendizagem Como processamos informações? Curso da Casa do Saber e livros de divulgação
Emoções e comportamento Motivação, hábitos e afetos Como cérebro, corpo e ambiente se relacionam? Livros de divulgação e cursos temáticos
Aprofundamento Um tema escolhido por você Que questão quero compreender melhor? Artigos científicos e formações específicas

Na etapa de fundamentos, reserve um tempo para entender como o cérebro se modifica com as experiências. Esse conceito ajuda a dar sentido a quase todo o resto.

Cada interesse, uma porta de entrada

O roteiro é um mapa, não um trilho. Muita gente começa por uma pergunta que já carrega. Alguns exemplos:

  • Aprendizagem > memória > atenção > neuroplasticidade > como o cérebro aprende.
  • Saúde mental > estresse > emoções > sono > relação entre cérebro, corpo e ambiente.
  • Comportamento > motivação > hábitos > sistema de recompensa e tomada de decisão.
  • Criatividade > associação de ideias > flexibilidade cognitiva.
  • Consciência > percepção > atenção > sono > filosofia da mente.
  • Envelhecimento > memória > reserva cognitiva > plasticidade ao longo da vida.

O que estudar em neurociência: conceitos fundamentais

Estudar neurociência vai muito além de memorizar regiões do cérebro e nomes de neurotransmissores – e isso é muito importante de diferenciar. O essencial é entender como as partes trabalham juntas.

Não por acaso, o curso Introdução à Neurociência, com a neurocientista Ana Carolina Souza, discute sobre como ela pode ser aplicada no nosso dia a dia.

A neurociência permite que entendamos mais sobre quem nós somos, como é o nosso comportamento e como interagimos com o mundo. Isso vai permitir rever certas práticas, como por exemplo: será que a maneira com que lidamos com a educação poderia ser diferente? Então esse conhecimento vai nos ajudando, a partir dessa perspectiva, a buscar novas formas de atingir os nossos objetivos, atender nossos desafios e a mudar a maneira como a gente se relaciona respeitando a natureza humana

Introdução à Neurociência, Ana Carolina Souza

Nesse caminho, existem conceitos que nos ajudam a construir uma boa base sobre a neurociência:

  • Neurônios: células especializadas em receber e transmitir sinais. Trabalham ao lado das células da glia, que, entre outras funções, dão suporte e proteção.
  • Sinapses: pontos de comunicação entre neurônios. É nelas que boa parte da aprendizagem deixa marcas.
  • Neurotransmissores: substâncias como dopamina e serotonina, que levam mensagens entre neurônios. Nenhuma delas, sozinha, explica um sentimento.
  • Neuroplasticidade: a capacidade do sistema nervoso de se modificar com a experiência, ao longo da vida.
  • Atenção: o processo que seleciona, entre tantos estímulos, aquilo que merece foco.
  • Memória: a capacidade de codificar, guardar e recuperar informações.
  • Emoções e motivação: processos que envolvem cérebro e corpo e orientam decisões e comportamentos.

A maior parte do nosso processo cerebral acontece de forma inconsciente, ou seja, não está no nosso controle

Introdução à Neurociência, Ana Carolina Souza

Dá para estudar neurociência sozinho?

Dá! E há um detalhe curioso: a própria ciência da aprendizagem ensina como estudar neurociência com mais proveito.

Uma revisão publicada em 2013 pelo psicólogo John Dunlosky e colegas avaliou dez técnicas de estudo. As mais bem avaliadas foram os autotestes, ou seja, tentar lembrar o conteúdo sem consultar o material, e a prática distribuída, que espaça os estudos ao longo do tempo.

Reler e grifar, estratégias muito populares, ficaram entre as de baixa utilidade – o que é uma pena, sobretudo para quem adora anotar coisas como eu rs.

Na prática, veja o que funciona:

  • Anote suas dúvidas: Um caderno de perguntas mostra o que ainda não ficou claro e orienta os próximos passos.
  • Relacione conceitos: Ligue o que estuda à vida real: estudando memória, pense em por que você esquece nomes ou tente lembrar de alguns. Traga exemplos, isso ajuda muito!
  • Teste-se: Feche o livro e explique o conceito com suas palavras, como se fosse ensinar alguém.
  • Espace as revisões: Voltar ao conteúdo depois de alguns dias funciona melhor do que maratonas de estudo.

Para entender por que essas estratégias funcionam, o curso Aprender a Aprender, também com Ana Carolina Souza, é um bom companheiro de estudo. As aulas abordam neuroplasticidade, memória, atenção, aprendizagem consciente e inconsciente, redes neuronais e o papel da prática na construção contínua do conhecimento.

Uma estratégia chamada de recuperação ativa, que é, ao invés de você correr para a internet e digitar lá a informação para te lembrar, de usar a IA para te trazer aquilo de forma rápida, de perguntar para alguém qualquer coisa, tenta lembrar. Quando você faz um esforço para lembrar alguma coisa, para recuperar essa informação, você também cria a ativação desse circuito e a recuperação da memória tem um peso muito grande na longevidade, na duração que ela vai ter depois. Então, antes de você tentar resolver rapidamente aquilo, tenta lembrar a informação, tenta recuperar a forma de chegar na resposta que você quer e isso vai te trazendo uma estabilidade também dessa memória

Aprendendo a Aprender, Ana Carolina Souza

Dica:

A série Explicando a Mente detalha o funcionamento do cérebro humano por meio de episódios dinâmicos e ilustrados de 20 minutos. Dividida em duas temporadas, a produção conecta a neurociência ao cotidiano para desvendar como retemos conhecimento e gerenciamos emoções.

Disponível: Netflix

Livros de neurociência para iniciantes

Uma boa estratégia para estudar sobre neurociência é começar pela divulgação científica e avançar, aos poucos, para obras mais técnicas.

  • O cérebro nosso de cada dia, de Suzana Herculano-Houzel. Nível introdutório. Textos curtos sobre curiosidades cotidianas, do bocejo contagioso ao mito dos 10% do cérebro. Para quem quer partir do cotidiano.

    Capa do livro O cérebro nosso de cada dia, de Suzana Herculano-Houzel, com ilustração de um relógio no formato de um cérebro.
    Capa do livro O cérebro nosso de cada dia, de Suzana Herculano-Houzel.
  • Cérebro: uma biografia, de David Eagleman. Nível introdutório. Panorama sobre percepção, decisões e identidade. Para quem busca uma visão geral.

    Capa laranja do livro Cérebro: uma biografia, de David Eagleman, com desenho de uma árvore formada por conexões neurais.
    Capa do livro Cérebro: uma biografia, de David Eagleman.
  • É assim que aprendemos, de Stanislas Dehaene. Nível intermediário. Reúne pesquisas sobre atenção, engajamento, erro e sono na aprendizagem. Para quem se interessa por educação e aprendizagem.

    Capa escura do livro É assim que aprendemos, de Stanislas Dehaene, com formas luminosas abstratas.
    Capa do livro É assim que aprendemos, de Stanislas Dehaene.
  • O erro de Descartes, de António Damásio. Nível intermediário. Mostra o papel das emoções nas decisões, em diálogo com a filosofia. Para quem se interessa por emoções e comportamento.

    Capa do livro O erro de Descartes, de António R. Damásio, com ilustração de um cérebro conectado a órgãos do corpo.
    Capa do livro O erro de Descartes, de António R. Damásio.
  • Cem bilhões de neurônios?, de Roberto Lent. Nível avançado. Livro-texto universitário, com linguagem didática. Para quem quer sistematizar os fundamentos.

    Capa azul do livro Cem bilhões de neurônios?, de Roberto Lent, com imagem de um cérebro formado por pontos coloridos conectados.
    Capa do livro Cem bilhões de neurônios?, de Roberto Lent.

Essas são algumas portas de entrada entre os livros de neurociência para iniciantes disponíveis em português.

Como reconhecer fontes confiáveis e evitar neuromitos

A neurociência virou tema de palestras, posts, promoções e propagandas. Em cada esquina é possível ler expressões como “ativar o cérebro”, “potencializar sua mente”, “desbloquear seu potencial” ou “estimular o cérebro da maneira certa”.

Mas nem tudo o que leva a palavra “cérebro” tem base científica.

Ideias equivocadas que nascem de pesquisas mal interpretadas são chamadas de neuromitos. Entre os mais conhecidos estão a crença de que usamos só 10% do cérebro, a divisão entre pessoas “de hemisfério direito” e “de hemisfério esquerdo” e a ideia de que cada um aprende melhor em um estilo, como visual ou auditivo.

Inclusive, tem um filme muito interessante sobre isso:

O longa Sem Fronteiras (2011) de Neil Burger acompanha Eddie Morra, um escritor fracassado que transforma sua vida ao tomar a NZT-48, uma droga experimental que desafia a ciência ao permitir o acesso a 100% da capacidade cerebral. O enredo explora a utopia urbana de que o cérebro humano é subutilizado e que, com o estímulo correto, qualquer pessoa comum poderia alcançar genialidade instantânea.

Revisões sobre o tema não encontraram evidências de que adaptar o ensino a esses estilos melhore a aprendizagem.

Ler mais sobre o cérebro, por si só, não protege contra esses equívocos. Um estudo publicado em 2012 ouviu 242 professores do Reino Unido e da Holanda interessados no tema. Em média, eles acreditaram em 49% dos neuromitos apresentados. E quem tinha mais conhecimento geral sobre o cérebro tendia a acreditar em mais mitos.

Bizarro, né?

Curso livre, graduação ou pós: qual caminho escolher?

Certo! Agora que eu adorei saber mais sobre como estudar neurociência, por onde devo caminhar?

Depende do que você quer fazer com esse conhecimento.

  • Interesse pessoal: livros, artigos de divulgação e palestras bastam para começar, sem pré-requisitos.
  • Curso livre: oferece um percurso organizado, com especialistas, para introdução ou aprofundamento. É uma boa opção de curso de neurociência para iniciantes, mas não habilita para atuação clínica nem forma pesquisadores.
  • Graduação e carreira científica: quem quer pesquisar costuma fazer mestrado e doutorado (a pós-graduação stricto sensu) depois de uma graduação em áreas como Biologia, Psicologia, Medicina, Biomedicina ou Física.
  • Pós-graduação lato sensu: para graduados que querem aplicar a neurociência na própria área de atuação.
  • Atuação clínica: diagnosticar e tratar exige graduação em áreas como Medicina ou Psicologia e registro profissional.

Na Casa do Saber, Introdução à Neurociência e Aprender a Aprender são bons cursos para os primeiros passos.

Depois, dá para seguir por temas:

  1. Neurociência para Desenvolver uma Mente Criativa, para quem se interessa por criatividade;
  2. Saúde Mental e Estresse: Uma Visão das Neurociências, para entender como o estresse afeta o bem-estar;
  3. e Inteligência Emocional, para explorar emoções e relações.

Vale conhecer os cursos de neurociência da Casa do Saber e entender o que se aprende em um curso de neurociência antes de escolher.

Para quem já tem graduação e busca uma formação acadêmica mais estruturada, há a Pós-graduação em Neurociência Aplicada à Saúde Mental e Bem-Estar, realizada pela Casa do Saber em parceria com a Anhanguera e coordenada por Ana Carolina Souza.

A especialização é 100% online e percorre fundamentos do sistema nervoso, neurobiologia, comportamento, neuropsicologia, saúde mental, educação e gestão do estresse.

A formação é aberta a graduados de áreas como saúde, educação, RH e assistência social, com abordagem interdisciplinar e aplicada. Ela não tem como objetivo habilitar para diagnóstico clínico nem para intervenções médicas ou farmacológicas.

A pós não é necessária para quem estuda neurociência por interesse. Mas, se você quer levar esse conhecimento à prática profissional, vale conhecer a pós-graduação em Neurociência Aplicada à Saúde Mental e Bem-Estar.

Perguntas frequentes

É preciso ser médico ou psicólogo para estudar neurociência?

Não. Qualquer pessoa pode estudar neurociência, por interesse pessoal ou profissional. A formação na área da saúde só é exigida para atuar clinicamente, ou seja, diagnosticar, tratar ou prescrever.

Por onde começar a estudar neurociência?

Pelo básico: o que o campo investiga e como neurônios e sinapses funcionam. Depois, avance para atenção, memória, emoções e hábitos. Por fim, escolha um tema de interesse para aprofundar.

Quem pode fazer uma pós-graduação em neurociência?

Pessoas com graduação concluída. Muitas especializações aceitam profissionais de diferentes áreas. Vale conferir os pré-requisitos e o objetivo de cada curso, já que uma pós lato sensu, por si só, não habilita para a atuação clínica.

Referências

DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

DEHAENE, Stanislas. É assim que aprendemos: por que o cérebro funciona melhor do que qualquer máquina (ainda). São Paulo: Contexto, 2022.

EAGLEMAN, David. Cérebro: uma biografia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

HERCULANO-HOUZEL, Suzana. O cérebro nosso de cada dia: descobertas da neurociência sobre a vida cotidiana. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2002.

LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios? Conceitos fundamentais de neurociência. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2010.

Artigo escrito por
Camila Fortes
Jornalista. Doutora em Informação e Comunicação em saúde (FIOCRUZ) com doutorado sanduíche na Universidade de Coimbra, Portugal. Mestra em Comunicação (UFPI). Pesquisadora em saúde mental no Brasil.