Filosofia

Filosofia Medieval: o que é, contexto histórico e vertentes

Filosofia Medieval: o que é, contexto histórico e vertentes

A filosofia medieval é uma vertente que tentava conciliar fé e razão, religião e ciência. Um dos seus principais nomes é Santo Agostinho, com a Patrística, e São Tomás de Aquino, com a Escolástica. A corrente filosófica medieval se desenvolveu durante a Idade Média, entre os séculos V e XV, momento em que o teocentrismo vigorava como pensamento central da sociedade medieval.

Neste artigo, você vai entender o contexto histórico da filosofia medieval, suas principais vertentes, pensadores centrais e a relação entre fé e razão.



O que é a Filosofia Medieval?

A filosofia medieval é uma corrente filosófica que diz respeito aos pensamentos que foram desenvolvidos durante a idade média que buscavam conciliar a fé e a razão filosófica.

O pensamento medieval se baseia nos valores religiosos da igreja católica. Mas a filosofia antiga, em especial o platonismo e o aristotelismo, tiveram também grande influência nos pensadores religiosos da época.

Por isso, os principais filósofos da idade média são figuras importantes relacionadas à igreja, como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.

A filosofia medieval foi marcada pela transição do pensamento da filosofia antiga, que passou a buscar explicações racionais e não mais mitológicas, para um pensamento que desenvolveu um esforço para reinterpretar, de forma racional, as influências dos filósofos gregos a partir dos valores religiosos cristãos.

A filosofia medieval nasce do diálogo entre a razão grega e a fé cristã. Platão é reinterpretado por pensadores, como Santo Agostinho, que identificaram na filosofia platônica o reflexo do pensamento divino.

O mundo sensível torna-se caminho de elevação espiritual em direção a Deus, o qual seria a fonte de toda verdade e bondade.

Já com Aristóteles, especialmente em Tomás de Aquino, a razão ganha nova função: demonstrar racionalmente aspectos da fé. Assim, filosofia e teologia se unem, buscando compreender o divino pela luz da razão.

Contexto histórico da Filosofia Medieval

Um fato histórico muito relevante para a transição cultural, social e política que levou ao desenvolvimento da filosofia medieval foi a queda do Império Romano.

Pintura representando a queda do Império Romano, marco histórico do início da Idade Média
Imagem representativa da queda do Império Romano. Destruição. Pintura de Thomas Cole, 1836.

A filosofia medieval foi uma forma de reestruturar a ordem social e cultural após a derrubada do Império Romano, fato histórico relevante para compreender a transição do pensamento antigo para o medieval.

Com este cenário de grande instabilidade, toda a estrutura política, social e econômica que vigorava na Europa Ocidental se desestabilizou. Entretanto, a Igreja Católica conseguiu permanecer como uma instituição sólida.

Com isso, o sistema social Romano e o paganismo foram sendo gradualmente substituídos pelo sistema de estado e filosofia da Igreja Católica.

Então, a filosofia medieval, que era voltada para o pensamento cristão e centralizava o poder dentro da própria igreja, consolidou-se como nova ordem religiosa e de governo.

Contudo, o pensamento da filosofia medieval começou antes do que é historicamente posto, entre os séculos V e XV.

Já que, com a morte de Jesus Cristo, para que seus ensinamentos não perecessem, os primeiros cristãos precisaram conciliar a filosofia grega com os valores cristãos.

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Vertentes da Filosofia Medieval

A filosofia patrística e escolástica são as mais conhecidas e importantes da filosofia medieval, mas antes disso a filosofia dos padres apostólicos foi muito importante para que os ideais e valores cristãos não se perdessem.

Filosofia dos padres apostólicos

Os padres apostólicos assim eram chamados porque eram ligados aos apóstolos.

Sua filosofia foi desenvolvida entre os séculos I e II. Portanto, eles se limitavam à temática moral para o desenvolvimento espiritual a partir da renúncia dos prazeres mundanos.

Basicamente, seus trabalhos eram voltados à explicação e propagação dos ensinamentos de Jesus Cristo dentro do Império Romano, o qual era pagão.

Padres apologistas

Os padres apologistas estão relacionados à apologia dos ensinamentos cristãos.

Foram aqueles que sistematizaram a defesa do cristianismo, na qual já era possível encontrar certo diálogo entre os conceitos do cristianismo e os ideais do helenismo.

Contudo, para eles, o pensamento cristão se colocava acima do pensamento pagão grego-romano.

Filosofia Patrística e Escolástica

Patrística e escolástica são duas vertentes do pensamento filosófico medieval.

A Patrística é considerada a primeira fase da filosofia medieval, enquanto a escolástica veio com uma tentativa de sistematização da fé a partir da razão.

Patrística

A filosofia patrística pode ser considerada o primeiro pensamento cristão e seu nome refere-se aos primeiros padres da Igreja Católica que se dedicaram a desenvolver uma filosofia cristã.

Sendo assim, é possível dizer que a filosofia patrística foi responsável pela construção do sistema teológico cristão, que se desenvolveu a partir do período em que o Império Romano aceitou o cristianismo como religião, ainda que os seguidores de Jesus Cristo sofressem perseguição.

Portanto, pode-se dizer que a patrística foi o esforço dos primeiros padres para desenvolver um pensamento que tentasse conciliar o pensamento cristão e o conhecimento religioso com a razão e a filosofia.

Com grande influência da filosofia grega, em especial o platonismo, os filósofos patrísticos tinham como principal ideal compreender a a fé a partir de um pensamento racional.

Representação de Santo Agostinho escrevendo, símbolo da patrística e da filosofia medieval cristã
Santo Agostinho, um dos primeiros e principais filósofos da Idade Média. Obra de Philippe de Champaigne, (1645-50).

Um dos principais nomes da patrística é Santo Agostinho. Ele acreditava que a harmonia entre a fé (Igreja católica) e a razão (filosofia) seria o caminho para encontrar a verdade.

A concepção de que a filosofia é a serva da teologia, ou seja, ela está subordinada à teologia e ela é um auxiliar. Certamente um auxiliar muito valioso, mas, com certeza, subordinado às verdades reveladas e que são artigo de fé.” Professor Oswaldo Giacóia, em Curso da Casa Saber - Jornada da Filosofia | Temporada 2.


Então, para Santo Agostinho, fé e razão não deveriam ser encaradas como opostos, mas sim em equilíbrio, na qual a fé só poderia ser alcançada a partir do pensamento racional.

Escolástica

A escolástica recebe este nome porque a “escolástica” vem da palavra escola.

Ela surgiu nas escolas monásticas e nas universidades europeias que foram fundadas e influenciadas pelo pensamento cristão.

A escolástica veio posteriormente à patrística, por volta do século IX. Pode se dizer que houve um trabalho de sistematização do pensamento teológico.

Assim como a patrística, a escolástica também recebeu grande influência da filosofia grega e da religião cristã.

Além da influência do pensamento platônico, que recebeu da patrística, a escolástica inspirou-se no aristotelismo.

O principal nome da escolástica foi São Tomás de Aquino, que sistematizou o pensamento de cristianismo a partir da filosofia aristotélica.

São Tomás de Aquino segurando a Suma Teológica, símbolo da escolástica medieval
São Tomás de Aquino, um dos principais nomes da escolástica.

São Tomás de Aquino foi responsável por transformar a tradição da razão e a experiência da fé em uma nova unidade, a sua filosofia que recebeu o nome de tomismo.

Ainda que São Tomás de Aquino dissesse que a razão e a fé se comunicam, a fé ainda estaria acima da razão.

“A autoridade da fé e a autoridade da razão dialogam e se comunicam, embora a razão esteja sempre, e ainda, subordinada à fé.” Professor Oswaldo Giacóia em Curso da Casa Saber - Jornada da Filosofia | Temporada 3.

Enquanto a patrística voltou seus esforços para a disseminação dos valores e dogmas do cristianismo; a escolástica buscou, por meio do racionalismo, sistematizar o pensamento teológico e explicar as relações entre a fé e a razão.


Outros nomes importantes para a filosofia medieval

Santo Agostinho e São Tomás de Aquino são os principais nomes da filosofia medieval, mas outros pensadores também foram relevantes para que o pensamento cristão se consolidasse na Idade Média.

Anselmo de Cantuária:

Anselmo buscou provar racionalmente a existência de Deus ao formular o famoso argumento:

  • parte-se do princípio de que somos capazes de pensar algo “do qual nada maior pode ser concebido”.

Portanto, se existe primeiro apenas na mente, então pode-se pensar que exista também na realidade.

Porém, se existir na realidade, será maior, logo, Deus existe também na realidade.

Guilherme de Ockham:

Guilherme de Ockham desenvolveu uma crítica radical à metafísica tradicional da escolástica e propôs o nominalismo, ou seja, que os universais não têm existência real fora da mente, são meros nomes que usamos para agrupar seres individuais.

Para ele, “todo o conhecimento metafísico de Deus é vão e inútil”.

O declínio da Filosofia Medieval

A transição da filosofia medieval para a filosofia moderna marca uma profunda mudança na maneira de compreender o mundo e o próprio ser humano.

Durante a Idade Média, o pensamento escolástico buscava conciliar fé e razão, unindo a filosofia grega, a partir dos pensamentos de Aristóteles e Platão, à teologia cristã.

Contudo, a expansão das universidades e as novas descobertas científicas começaram a desafiar as explicações que eram dadas pela religião, então a escolástica começou a perder força e influência.

Com isso, antes o teocentrismo, que coloca Deus como centro de tudo e o ser humano como parte de uma ordem divina, passa a ser substituído pelo antropocentrismo, o qual coloca o homem como centro do conhecimento.

Então, o humanismo e o antropocentrismo trazem espaço para o surgimento de uma nova filosofia, a filosofia moderna.

Um nome conhecido propõe um método baseado na dúvida e na razão, René Descartes, dando os primeiros passos para o racionalismo.

Ao mesmo tempo, pensadores como Francis Bacon e John Locke afirmavam o papel da experiência sensível e do método empírico na construção do conhecimento.

Assim, a filosofia moderna nasce dentro do contexto medieval, mas tira de foco Deus e traz o olhar da filosofia e das ciências para investigação da mente humana e para a razão como fonte do conhecimento seguro.


Frases marcantes da filosofia medieval

  • "O verdadeiro conhecimento vem de dentro." (Santo Agostinho)
  • "O desordenado amor por si mesmo é a causa de todos os pecados." (São Tomás de Aquino)
  • "Creio para compreender e compreendo para crer melhor." (Santo Agostinho)
  • “É evidente que somente as criaturas intelectuais são, falando propriamente, à imagem de Deus” (São Tomás de Aquino)


Perguntas frequentes sobre filosofia medieval

O que é filosofia medieval?

A filosofia medieval é uma corrente filosófica desenvolvida entre os séculos V e XV. Basicamente, busca conciliar razão e unindo filosofia, teologia e a razão.



Quais são os principais filósofos medievais?

Os principais filósofos medievais são Santo Agostinho, Anselmo de Cantuária, Tomás de Aquino, Guilherme de Ockham entre outros.



Qual a diferença entre patrística e escolástica?

A patrística, período que durou do século I ao século VIII, buscava explicar a fé com base nos ensinamentos dos Padres da Igreja Católica. Já a escolástica, que vigorou entre os séculos IX e XVI, surgiu nas universidades medievais a fim de sistematizar a relação entre razão e fé a partir de um método lógico e filosófico.



Qual é a relação entre fé e razão na filosofia medieval?

A e a razão para a filosofia medieval são complementares. A razão não é aplicada com a intenção de negar a fé, pelo contrário, ela busca compreender racionalmente os mistérios que são revelados pela fé.



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Referências:

Curso da Casa do Saber: Jornada da Filosofia | 2ª Temporada

HANKS, Patrick. Medieval Philosophy. Stanford Encyclopedia of Philosophy, editado por Edward N. Zalta. Stanford: Metaphysics Research Lab, Stanford University, 14 set. 2022 (revisão 19 dez. 2024).

REALE, Giovanni. História da Filosofia | Patrística e Escolástica. V2. ed. São Paulo: Loyola, 2003

Artigo escrito por
Paula Delgado
Jornalista pela UFJF, mestra e doutoranda em Comunicação pela mesma instituição, integra o grupo de pesquisa Núcleo de Jornalismo Audiovisual (NJA).