
Que as mulheres são os principais alvos de violência de gênero, nós já sabemos. E existe um termo pra isso: misoginia.
Misoginia é o termo utilizado para descrever a hostilidade, o desprezo ou a aversão direcionada às mulheres. Em outras palavras, é a base de uma sociedade que desvaloriza o feminino, resultando em comportamentos ofensivos, humilhações, objetificação, agressões físicas, sexuais e feminicídio.
Embora muitas vezes seja associada a atitudes individuais, a misoginia também está ligada a estruturas culturais, históricas e sociais que influenciam a forma como as mulheres são percebidas e tratadas.
Ao longo do tempo, esse fenômeno assumiu diferentes formas e contextos. Neste artigo, vamos explicar o que é misoginia, sua origem histórica, como ela se manifesta na sociedade e por que o tema continua relevante na atualidade.
O artigo abordará os seguintes tópicos:
O que é misoginia?
A misoginia pode ser definida como a hostilidade ou o desprezo direcionado às mulheres enquanto grupo social.
O significado de misoginia envolve atitudes, discursos ou práticas que desvalorizam mulheres, reforçam estereótipos de gênero ou contribuem para a manutenção de desigualdades entre homens e mulheres.
A origem da palavra vem do grego antigo: misein, que significa odiar, e gyné, que significa mulher. Dessa forma, o termo pode ser traduzido literalmente como “ódio às mulheres”.
No entanto, nas ciências sociais, o conceito costuma ser utilizado de maneira mais ampla, descrevendo também padrões culturais e estruturas sociais que reforçam a desvalorização feminina.
Por esse motivo, pesquisadores frequentemente analisam a misoginia em conexão com conceitos como patriarcado, desigualdade de gênero, violência simbólica e discriminação.
Diferença entre misoginia, machismo e sexismo
Embora os termos sejam frequentemente confundidos, eles não significam exatamente a mesma coisa. A tabela abaixo ajuda a visualizar as diferenças principais.
| Conceito | Definição | Exemplo |
|---|---|---|
| Misoginia | Hostilidade ou desprezo direcionado às mulheres | Ataques ou insultos dirigidos a uma mulher apenas por ela ser mulher, como comentários agressivos contra uma jornalista ou política nas redes sociais. |
| Machismo | Ideologia que defende a superioridade masculina | A ideia de que cargos de liderança devem ser ocupados preferencialmente por homens porque eles seriam “naturalmente mais capazes”. |
| Sexismo | Discriminação baseada no sexo ou no gênero | Pagar salários menores a mulheres que exercem a mesma função que homens. |
Se o machismo está relacionado à ideia de que homens devem ocupar posições de autoridade ou liderança, o sexismo refere-se a qualquer forma de discriminação baseada no gênero.
Já a misoginia enfatiza a dimensão da hostilidade ou da desvalorização dirigida especificamente às mulheres, podendo aparecer tanto em comportamentos individuais quanto em padrões culturais.
A origem histórica da misoginia
Para saber como essa estrutura de violência surgiu, é preciso saber que a origem da misoginia não pode ser atribuída a um único momento histórico.
Pesquisadores apontam que formas de desvalorização das mulheres aparecem em diferentes sociedades ao longo do tempo, muitas vezes associadas à organização social e às estruturas de poder existentes em cada contexto.
Embora o conceito moderno seja relativamente recente, o fenômeno que ele descreve possui raízes profundas. Durante séculos, muitas sociedades foram organizadas de forma patriarcal, com homens ocupando posições predominantes em instituições políticas, religiosas e familiares.
Dica da Casa:
Para entender mais sobre a origem das estruturas de violência contra as mulheres, leia "Calibã e a Bruxa" (2019), de Silvia Federici.
Nesta obra, a autora argumenta que a transição para o capitalismo exigiu uma guerra sistemática contra as mulheres, exemplificada pela caça às bruxas, para destruir sua autonomia reprodutiva e social.
Federici demonstra que a acumulação primitiva de capital não se baseou apenas na exploração do trabalho assalariado, mas na criação de um patriarcado do salário que confinou a mulher ao trabalho doméstico não remunerado.

Representações da mulher na Antiguidade
Em diversas sociedades antigas, as mulheres tinham acesso limitado à vida pública e à participação política. Em algumas cidades da Grécia antiga, por exemplo, apenas homens podiam participar diretamente das decisões políticas.
Além das instituições, as representações culturais também refletiam essas hierarquias. Narrativas mitológicas e literárias frequentemente associavam mulheres à esfera doméstica ou retratavam personagens femininas como figuras ambíguas, às vezes ligadas à fertilidade e ao cuidado, outras vezes associadas à tentação ou ao caos.
Essas representações ajudaram a consolidar expectativas sociais sobre papéis femininos e masculinos.
Filosofia, religião e papéis de gênero
Ao longo da história, tradições filosóficas, religiosas e intelectuais ajudaram a consolidar normas sobre os papéis de homens e mulheres.
Essas normas determinavam quais comportamentos, responsabilidades e espaços eram considerados apropriados para cada gênero, moldando tanto a vida familiar quanto a participação pública.
Em muitos contextos, homens eram associados à liderança política, religiosa ou intelectual, enquanto mulheres eram vinculadas principalmente à esfera doméstica e ao cuidado familiar.
Tais expectativas não se limitavam a regras explícitas; elas estavam incorporadas a códigos morais, interpretações teológicas e concepções filosóficas sobre a “natureza feminina”, influenciando decisões sobre educação, trabalho e cidadania.
Essa construção histórica de papéis de gênero serviu para legitimar desigualdades estruturais e para naturalizar a subordinação feminina, formando parte do arcabouço cultural que sustenta a misoginia até hoje.
É por isso que ao analisar filosofia, religião e papéis de gênero, percebe-se que muitas das ideias que limitavam a autonomia das mulheres não eram apenas individuais, mas refletiam concepções coletivas sobre ordem social, autoridade e moralidade.

A obra retrata Susana sendo assediada por dois juízes, episódio bíblico do livro de Daniel. Artemisia destaca a vulnerabilidade feminina diante da violência e do poder masculino, abordando o tema do assédio e da injustiça.
Como a misoginia se manifesta na sociedade?
A misoginia na sociedade pode assumir diversas formas, desde atitudes cotidianas até desigualdades estruturais. Nem sempre ela aparece de maneira explícita.
Muitas vezes, manifesta-se por meio de práticas culturais, estereótipos ou padrões sociais que afetam a forma como as mulheres são percebidas e tratadas.
Estereótipos de gênero
Um dos mecanismos mais comuns de reprodução da misoginia envolve os estereótipos de gênero. Esses estereótipos consistem em generalizações sobre comportamentos ou características atribuídas a homens e mulheres.
Por exemplo, mulheres em cargos de chefia podem ser criticadas por serem “mandonas” ou “emocionais”, enquanto homens recebem elogios por demonstrarem firmeza ou assertividade nas mesmas situações.
Outro exemplo ocorre no cotidiano de crianças e adolescentes, quando meninas são retratadas em brinquedos ou desenhos animados como cuidadoras ou passivas, enquanto meninos aparecem como aventureiros e líderes.
O que vemos é que em diferentes contextos culturais, qualidades como liderança, racionalidade ou autoridade ainda são frequentemente associadas aos homens, enquanto mulheres podem ser descritas como mais emocionais ou menos adequadas para posições de poder.
Desqualificação intelectual
Outra manifestação recorrente envolve a tendência de questionar ou minimizar a autoridade intelectual de mulheres.
Em debates públicos, ambientes acadêmicos ou espaços de trabalho, pesquisas indicam que mulheres podem enfrentar maior escrutínio em relação às suas competências.
É o que nos diz o levantamento “Alianças masculinas e a liderança das mulheres: além do discurso”, feito pela Todas Group em parceria com a Nexus. De acordo com o estudo que entrevistou mais de 1,5 mil profissionais, 77% das mulheres em cargos de liderança já enfrentaram obstáculos relacionados ao gênero.
Dessas, 46% relataram algumas dificuldades e 31% muitas barreiras, enquanto apenas 17% afirmaram nunca ter passado por esse tipo de situação.
A percepção de barreiras aumenta conforme a mulher avança na hierarquia corporativa: entre presidentes, vice-presidentes, sócias e CEOs, 40% relataram ter enfrentado muitas dificuldades, um índice superior à média geral.
A desqualificação intelectual pode aparecer em situações do nosso cotidiano como, por exemplo:
- Interrupções frequentes durante falas: quando uma mulher tenta expor suas ideias em reuniões ou debates, mas é constantemente interrompida ou não consegue concluir seu argumento, mesmo que seja sólido.
- Atribuição de ideias a colegas masculinos: quando projetos, sugestões ou insights apresentados por mulheres são creditados a homens, de forma direta ou sutil, reforçando a invisibilidade do trabalho feminino.
- Resistência à liderança feminina: em contextos profissionais ou comunitários, decisões tomadas por mulheres líderes são questionadas ou desafiadas com mais intensidade do que quando tomadas por homens, dificultando a legitimidade e a autoridade feminina.
Embora nem sempre seja intencional, esse tipo de comportamento contribui de modo significativo para a reprodução de desigualdades.

Violência simbólica e violência de gênero
A misoginia também pode aparecer por meio da chamada violência simbólica, um conceito que descreve formas de dominação presentes na linguagem, nas representações culturais e nas normas sociais.
- Piadas depreciativas sobre mulheres: comentários que reforçam estereótipos, como “mulheres não entendem de finanças” ou “isso é coisa de mulher”, que minimizam habilidades e competências femininas em situações diárias.
- Representações estereotipadas em contextos sociais ou familiares: quando mulheres são constantemente associadas apenas a tarefas domésticas, cuidado de crianças ou papéis de apoio, enquanto homens são vistos como líderes ou tomadores de decisão, reforçando desigualdades desde cedo.
- Discursos que desqualificam experiências femininas: quando relatos de assédio, opinião ou experiência pessoal de mulheres são ignorados, relativizados ou questionados, criando um ambiente em que a voz feminina é menos valorizada.
Em sua forma mais grave, a misoginia pode se manifestar como violência contra mulheres, incluindo violência doméstica, assédio sexual ou agressões físicas e psicológicas.
Importante:
Nenhum tipo de violência contra mulheres é aceitável.
Se você ou alguém que você conhece está enfrentando violência, existem canais de apoio disponíveis, como o Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher) e o Disque 100 (Direitos Humanos), além de serviços locais de acolhimento, delegacias especializadas e organizações de proteção à mulher.
Buscar ajuda é fundamental para garantir segurança e apoio.
Misoginia na cultura e na internet
Com o crescimento das redes sociais e das plataformas digitais, a misoginia na internet tornou-se um tema cada vez mais discutido.
A internet ampliou a participação pública e permitiu que mais pessoas se expressem em espaços de debate. Ao mesmo tempo, também criou ambientes onde discursos hostis podem se espalhar rapidamente.
Mulheres que ocupam posições públicas, como jornalistas, pesquisadoras, políticas ou criadoras de conteúdo, frequentemente relatam receber ataques online direcionados ao gênero.
Esses ataques podem envolver insultos, campanhas de assédio ou tentativas de deslegitimar a presença feminina em determinados espaços.
Infelizmente, algumas características da comunicação digital contribuem para esse fenômeno, como o anonimato e a velocidade de circulação das informações. Em alguns casos, comunidades virtuais podem reforçar narrativas hostis e incentivar comportamentos agressivos.
Um outro exemplo recente de como a misoginia se manifesta em espaços públicos e digitais é o projeto MonitorA – Observatório de Violência Política, uma iniciativa da AzMina em parceria com o InternetLab e o Núcleo Jornalismo, que acompanhou o discurso de ódio contra candidatas nas eleições de 2022 no Brasil.
O levantamento mostrou que 1 em cada 3 tweets que tratava sobre mulheres e política, continha algum tipo de ofensa à mulheres candidatas.
Além disso, apontou que na primeira semana de campanha, foram registradas 518 ocorrências de termos que associavam candidatas a loucura, histeria ou desequilíbrio emocional, refletindo como ataques misóginos buscam desqualificar e excluir mulheres da esfera política digital.
Esses fenômenos tornaram a misoginia digital um campo crescente de estudo na sociologia da internet e na comunicação.

Por que a misoginia ainda é um problema atual?
Apesar de transformações sociais importantes ao longo do último século, a misoginia continua sendo um tema relevante no debate público.
Isso ocorre porque muitas formas de desigualdade de gênero ainda persistem em diferentes contextos sociais.
Instituições como o mercado de trabalho, a política e os sistemas educacionais foram historicamente estruturadas em contextos nos quais a participação feminina era limitada.
Além disso, estereótipos de gênero continuam circulando em diferentes formas de produção cultural, como mídia, publicidade e entretenimento.
Um exemplo são os grupos conhecidos como "Red Pill", "Incel" e "MTGOW" (Men Going Their Own Way/Homens Seguindo Seu Próprio Caminho), que compartilham discursos e conteúdos que reforçam a ideia de superioridade masculina e desvalorizam mulheres, promovendo narrativas que culpabilizam o feminino por problemas sociais ou relacionamentos pessoais.
Esses espaços digitais criam comunidades de validação mútua, onde hostilidade e preconceito de gênero são naturalizados, mostrando como a misoginia não se limita a atos individuais, mas se reproduz em padrões culturais e sociais contemporâneos.
Por essas razões, a misoginia continua sendo um problema grave e presente em nossa sociedade. Combater essa hostilidade não é tarefa das mulheres sozinhas: é de todos, homens e instituições incluídos.
Ignorar, minimizar ou normalizar atitudes que desvalorizam as mulheres significa perpetuar desigualdades, violência e exclusão.
É responsabilidade coletiva transformar estruturas, discursos e comportamentos para que mulheres possam viver, trabalhar e participar plenamente em todos os espaços sem medo.
Perguntas frequentes sobre misoginia
O que significa misoginia?
Misoginia é o termo utilizado para descrever hostilidade, desprezo ou aversão direcionada às mulheres. O conceito pode se referir tanto a atitudes individuais quanto a práticas culturais e sociais que reforçam a desvalorização feminina.
Qual a diferença entre misoginia e machismo?
A misoginia refere-se principalmente à hostilidade ou desprezo direcionado às mulheres. O machismo, por sua vez, é uma ideologia que defende a superioridade masculina e a manutenção de papéis de gênero hierárquicos.
Como a misoginia aparece na internet?
Na internet, a misoginia pode aparecer em forma de insultos, campanhas de assédio, ataques coordenados contra mulheres ou discursos de ódio direcionados a figuras públicas femininas.
Referências:
https://fenati.org.br/maioria-mulheres-barreiras-de-genero-carreira/
https://azmina.com.br/reportagens/monitora-2022-misoginia-ofensas-candidatas/



