A angústia existencial faz parte da vida humana. Ela está relacionada ao confronto do indivíduo com a liberdade e as escolhas.
Provavelmente, você já ouviu a música do Capital Inicial que tem a seguinte frase: “O que você faz quando ninguém te vê fazendo? Ou o que você queria fazer se ninguém pudesse te ver?”
Essa estrofe pode ilustrar o questionamento que surge quando se toma consciência da liberdade, da falta de respostas prontas para o sentido da vida e do impacto do outro nas suas escolhas.
Neste artigo, você vai compreender como diferentes filósofos do existencialismo abordam esse tema e como ter consciência da própria existência ajuda a entender como lidar com as possibilidades e as incertezas da vida.
O que é angústia existencial?
A angústia existencial é uma experiência relacionada à liberdade, às possibilidades de escolha, à busca por sentido e à própria finitude da vida.
Diferentemente do medo, que geralmente está associado a uma situação ou coisa específica, a angústia filosófica não tem um motivo claro e aparente. Por isso, manifesta-se quando o indivíduo se vê diante das incertezas da própria existência.
Na filosofia de Kierkegaard, a angústia está relacionada à possibilidade de escolher diferentes caminhos e de assumir uma existência particular, o que leva necessariamente a abandonar outras opções, como explica o professor Maurício Marsola, “É a possibilidade de escolha que nos angustia”.
A partir disso, surge uma tensão entre a finitude e o desejo de infinitude. Já Sartre trata da relação entre liberdade e angústia a partir da responsabilidade pelas escolhas e da ausência de critérios morais previamente determinados que garantam as decisões do indivíduo.
Por isso, a angústia existencial pode estar relacionada a uma crise existencial. Quando as certezas previamente estabelecidas deixam de oferecer respostas suficientes, pode surgir uma crise de sentido, acompanhada de uma sensação de vazio existencial.
Contudo, é importante entender que isso não significa, necessariamente, a existência de um transtorno psicológico. Na filosofia, a angústia existencial é abordada como uma questão sobre como vivemos, fazemos escolhas e atribuímos significados à própria existência.
Angústia em Kierkegaard e Sartre
Segundo o professor Maurício Marsola, Kierkegaard relaciona a angústia à possibilidade de dar uma direção à própria existência. O filósofo desenvolve esse pensamento em sua obra “O conceito de angústia”, na qual trata essa experiência como parte da condição humana, marcada por tensões e pela abertura a diferentes possibilidades.
Portanto, a escolha coloca o indivíduo diante de uma situação em que escolher significa perder outras possibilidades. Entretanto, isso não é necessariamente ruim, porque é por meio da decisão que o sujeito assume a responsabilidade de dar sentido à própria existência.
Kierkegaard recorre à figura de Adão para demonstrar a relação entre liberdade, possibilidade e angústia diante da proibição divina e da possibilidade de pecar.
Já para Sartre, como explica o professor Paulo Niccoli, a angústia diante da escolha tem um peso moral, porque não existem critérios morais previamente estabelecidos que determinem como o indivíduo deve agir.
Sendo assim, mesmo quando se recorre a referências como a religião, a família ou os valores da sociedade, é necessário assumir a responsabilidade pelas escolhas que se faz.
É justamente a ausência de garantias que provoca angústia e desamparo, porque não se pode transferir a terceiros a responsabilidade pela decisão tomada.
Por isso, Sartre associa a liberdade à angústia, porque escolher um caminho significa deixar outras opções para trás e assumir uma decisão cujas consequências não podem ser totalmente previstas.
Sartre sempre percebe que ser livre é fazer escolhas, esse é o ponto crucial.
Portanto, a angústia aparece porque é necessário decidir como agir, ainda que não se tenham respostas prontas para orientar os caminhos durante a existência humana.
Contudo, em Sartre, a liberdade não significa poder fazer tudo o que se deseja. As escolhas acontecem em contextos concretos, marcados pelas condições sociais e pelas relações com o outro.
Dessa forma, a angústia filosófica não decorre da ideia de que se pode fazer qualquer coisa, mas da necessidade de construir a própria existência dentro das possibilidades e dos limites de cada situação.
O que acontece quando a vida perde o sentido?
A perda de sentido é um tópico fundamental para a corrente filosófica do existencialismo.
A angústia existencial também pode surgir quando as referências que orientam nossa vida deixam de oferecer respostas capazes de dar sentido à existência. Nietzsche, Camus e Sartre contribuem para compreender essa experiência a partir de diferentes perspectivas.
O vazio existencial em Nietzsche, Camus e Sartre
Nietzsche apresenta o niilismo como uma possibilidade de compreender o que acontece quando os valores de uma sociedade, que antes davam sentido à existência do indivíduo, perdem sua força.
De acordo com Isadora Petry, doutora em filosofia pela Unicamp, o niilismo está relacionado à experiência do nada, do vazio e da ausência de sentido. Aquilo que antes orientava as escolhas passa a provocar uma crise existencial, porque já não oferece as mesmas certezas.
Camus também se debruça sobre a falta de sentido, mas a partir da relação entre o ser humano e o absurdo. O absurdo nasce do confronto entre o desejo humano de clareza e sentido e a impossibilidade de encontrar respostas definitivas na realidade. Com isso, Camus propõe pensar como viver mesmo quando não há um significado garantido.
De acordo com o professor Franklin Leopoldo, para Sartre “a morte transforma a vida em destino, porque o indivíduo chegou a algum lugar e aquele lugar é o último que ele poderia chegar”. Ou seja, a existência humana é interrompida pela morte, que dá à vida um desfecho definitivo, sem que o sujeito alcance a si mesmo.
Enquanto a reflexão de Camus sobre o absurdo envolve a possibilidade de viver sem respostas definitivas, a liberdade em Sartre implica assumir a responsabilidade de construir a própria existência por meio das escolhas e das ações, sem que haja um sentido previamente determinado.
A relação da angústia existencial com o outro
Apesar de a angústia existencial partir de um contexto individual, ela também pode ser entendida a partir das relações que se estabelecem com o outro e das expectativas sociais que influenciam as escolhas.
Filósofos como Nietzsche, Kierkegaard e Sartre ajudam a compreender como a angústia existencial não é um fenômeno estritamente individual e como fatores externos também moldam a busca por sentido na vida.
O impacto do outro nas escolhas do indivíduo
Para Nietzsche, a moral do rebanho permite compreender como os valores compartilhados por um grupo influenciam o indivíduo.
Quando uma sociedade estabelece valores e regras, o sujeito, ao aceitá-los, pode deixar de questionar, o que o leva a não construir suas próprias perspectivas. Essa influência pode impedi-lo de criar novos valores e dificultar a afirmação de outras formas de existência.
Heidegger também trata da influência do outro por meio do conceito de o impessoal, das man em alemão. No cotidiano, o ser humano tende a seguir o que um grupo pensa, faz ou diz, o que o afasta da possibilidade de assumir uma existência autêntica.
A angústia pode causar desconforto sobre essa maneira de viver, levando o indivíduo a confrontar a própria finitude e a refletir sobre a própria existência.
Sartre também aborda a ideia de que a liberdade não é vivida isoladamente. O filósofo afirma que “o outro é o mediador indispensável entre mim e mim mesmo”, em seu livro O Ser e o Nada (1943).
Isso significa que o olhar alheio permite ao sujeito tomar consciência de si também como objeto para outra pessoa, o que pode despertar sentimentos como vergonha ou orgulho. O olhar do outro, portanto, influencia a maneira como o indivíduo percebe a si mesmo.
As expectativas sociais também podem servir como referências para orientar as escolhas. Entretanto, quando essas referências deixam de oferecer respostas satisfatórias, abre-se a possibilidade de questionar o caminho que se está seguindo.
A retomada da nossa vida como nossa vida, não simplesmente como seguir as expectativas que nos são colocadas de fora de nós, mas justamente na angústia, como no pecado, nós somos conscientes de que a nossa existência é liberdade.
Com isso, a angústia existencial pode ser entendida como parte da reflexão sobre a própria existência, considerando as relações e as expectativas que fazem parte da realidade.
A angústia filosófica permite questionar quais escolhas fazem sentido e como lidar com a própria existência diante da influência inevitável do outro.
Qual a diferença entre angústia existencial e ansiedade?
Embora a angústia existencial e a ansiedade estejam relacionadas a experiências de inquietação e sofrimento, elas não são a mesma coisa.
Para compreender essa diferença, é importante considerar que a filosofia investiga o sentido da angústia na existência humana. Por isso, é necessário ter cuidado para não confundir essa reflexão filosófica com as questões relacionadas à saúde mental.
Angústia filosófica não é ansiedade
Na filosofia existencial, a angústia pode estar relacionada à liberdade, à necessidade de escolher e à ausência de garantias sobre a própria existência.
Como apresentado neste artigo, Kierkegaard relaciona a angústia à abertura de possibilidades, enquanto Sartre a associa à necessidade de assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas.
A ansiedade é muito mais do que mera ansiedade. É uma disposição existencial de ânimo em que nós somos colocados como que por meio de um sentimento de mal-estar opressivo diante do nada.
A ansiedade também é um conceito estudado no campo da psicologia e da saúde. Embora angústia filosófica e ansiedade possam apresentar semelhanças, não é correto afirmar que toda angústia seja ansiedade ou que todo sofrimento relacionado à existência corresponda a uma condição clínica.
Questionar o sentido da vida faz parte da experiência humana, mas, quando esse questionamento vem acompanhado de sofrimento, é importante não o classificar automaticamente como ansiedade no sentido clínico do termo.
A angústia existencial pode ser positiva
Segundo o professor Maurício Marsola, para Kierkegaard, a possibilidade de escolha está ligada à própria experiência da angústia, mas ela não é necessariamente negativa.
Ainda que seja um processo doloroso, a angústia pode contribuir para a reflexão sobre a existência e para a compreensão das possibilidades que se apresentam ao indivíduo.
A possibilidade de escolha, para Kierkegaard, nem sempre é negativa, ela é positiva. Porque ela faz com que nós transcendamos a nossa condição. Quando nós vamos escolher, é que nós vamos dar sentido.
Kierkegaard e Sartre mostram, ainda que a partir de pontos de vista distintos, como a possibilidade e a necessidade de escolha se relacionam à angústia.
Essa experiência pode levar o indivíduo a se posicionar no mundo, tomar as próprias decisões e questionar suas escolhas, em vez de apenas seguir as expectativas impostas pela sociedade.
Perguntas frequentes sobre angústia existencial
O que causa a angústia existencial?
A angústia existencial pode surgir diante da liberdade, da necessidade de escolher e da busca por sentido para a vida. Kierkegaard relaciona a angústia à abertura de possibilidades. Sartre aborda a necessidade de construir a própria existência sem garantias ou valores previamente estabelecidos que determinem como o indivíduo deve agir.
A angústia existencial é uma crise existencial?
A angústia existencial e a crise existencial não são a mesma coisa, ainda que possam estar relacionadas.
A angústia existencial está ligada à condição humana e à reflexão sobre a liberdade, as possibilidades e o sentido da existência. Já a crise existencial pode ocorrer quando esses questionamentos se intensificam e levam o indivíduo a reavaliar seus valores, suas escolhas e a direção que deseja dar à própria vida.
Como saber se estou passando por uma crise existencial?
No sentido filosófico, uma crise existencial envolve o momento em que questionamentos sobre o sentido da vida, os próprios valores, as escolhas e o futuro se tornam necessários. Isso pode acontecer quando as referências que antes sustentavam as decisões deixam de oferecer respostas satisfatórias.
Por que a liberdade pode causar angústia?
A liberdade pode causar angústia porque escolher um caminho significa deixar outras possibilidades para trás e assumir a responsabilidade pelas próprias decisões. Para Kierkegaard, a angústia está relacionada à abertura de possibilidades que acompanha a liberdade. Já para Sartre, não existem valores previamente estabelecidos capazes de determinar todas as escolhas, com isso, o indivíduo precisa assumir a responsabilidade por suas ações e decisões.
Referências
Curso Casa do Saber | Os Pensadores, com Franklin Leopoldo
Curso Casa do Saber | Os Existencialismos, com Mauricio Marsola
Curso da Casa do Saber | Nietzsche Fundamental | Com Isadora Petry
Curso da Casa do saber | Trilha da Filosofia - 5a Temporada | com Oswaldo Giacoia
Curso da Casa do saber | Guia Essencial da Filosofia: Pensamento Contemporâneo | com Paulo Niccoli
Sartre, Jean-Paul. El ser y la nada. 2016. Titivillus, 1991.

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