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Como superar uma traição: o guia definitivo para recomeçar

Como superar uma traição: o guia definitivo para recomeçar

A traição costuma agir como um abalo sísmico na vida emocional, quebrando expectativas, confiança e até a imagem que temos de nós mesmos. Entender como superar uma traição envolve reconhecer essa ruptura, atravessar o luto do vínculo e descobrir novos sentidos para o que foi vivido.

Neste artigo, vamos ver por que a traição dói tanto, como esse processo mexe com o inconsciente e quais caminhos podem ajudar na reconstrução interior.



Por que a traição dói tanto?

Só quem já sofreu por uma traição, sabe o que ela significa em uma relação, não é mesmo?

Esse sentimento, que rompe não apenas com um acordo entre duas pessoas, mas com algo dentro de quem foi traído, é o colapso de um mundo que parecia seguro e que passa a deixar de ter sentido.

Como diz Lucas Bulamah, psicólogo, psicanalista e doutor em psicologia clínica pela USP, “confiar não é ter garantias, é aceitar o risco”, e quando o risco se concretiza e o pacto simbólico se quebra, o sujeito é lançado em um vazio: a experiência do desamparo e da perda de si.

A traição pode não se limitar a relações amorosas. Pode, inclusive, ter a ver com um rompimento entre amigos ou familiares.

Nesse sentido, a traição deixa de ser apenas a ruptura de uma relação romântica e passa a ser entendida como uma quebra de confiança em qualquer laço de afeto.

Ela pode ocorrer quando alguém viola um segredo, mente de forma decisiva ou se ausenta em um momento em que o outro mais precisava. Pode tratar de omissões, negligências ou ações que desconsideram o vínculo estabelecido, provocando sensação de abandono ou de desrespeito.

Em todos esses casos, o que se rompe é o pacto simbólico de cuidado e lealdade que sustenta o vínculo; o mesmo pacto que, no amor, é traduzido como fidelidade.

Superar uma traição, portanto, trata-se de atravessar um processo de reconstrução psíquica que envolve luto, raiva, culpa e, sobretudo, a difícil tarefa de reencontrar confiança, primeiro em si, depois no outro.

Nesse caminho, te convidamos para uma reflexão sobre esse percurso, inspirada na psicanálise e nas ideias de professores da Casa do Saber.

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A dor da descoberta: o colapso do eu e do vínculo

Como já sabemos até aqui, a traição é um corte simbólico. Ela abala não apenas o amor, mas a imagem que a pessoa tinha de si dentro da relação. Segundo Carol Tilkian, no curso Luto, Rejeição e Abandono, “o luto é ter sido arrancado de uma porção de coisas sem sair do lugar”.

Por isso, quando o amor se desfaz abruptamente, o sujeito não perde apenas o outro, mas o lugar que ocupava junto a ele.

E o que isso significa?

O “arrancamento” de que fala Tilkian é interno, na medida em que o corpo está no mesmo espaço; que a rotina pode até continuar, mas algo essencial se rompeu. É como se aquele lugar onde o “nós” existia, deixasse de sustentar o “eu”.

Surge, então, uma sensação de desencaixe: o mundo segue igual, mas já não faz sentido do mesmo jeito. Esse é o início do luto amoroso, um processo em que se tenta elaborar a ausência do que ainda está presente, a perda do que ainda respira.

Mulher jovem observando uma aliança com expressão de dúvida, refletindo sobre seu relacionamento
A traição não destrói apenas a confiança, mas também muda a forma como vemos a nós e a quem amamos - Foto de Vitaly Gariev/ Unsplash

E o corpo sente, sabia?

Um estudo da National Library of Medicine (NIH) destaca que esse colapso pode gerar reações intensas: raiva, incredulidade, vergonha, e até sintomas físicos, como insônia, perda de peso e falta de apetite.

As experiências de infidelidade ativam áreas cerebrais ligadas à dor física, e isso acontece porque o cérebro interpreta a quebra de confiança como uma ameaça à sobrevivência emocional, acionando os mesmos circuitos neurológicos ativados em situações de dor física intensa.

Essa sobreposição explica por que tantas pessoas relatam sintomas como aperto no peito, náusea, taquicardia ou a sensação de “vazio” no estômago após descobrir uma traição.


A culpa da traição é minha?

Nesse processo, é comum que surja a pergunta: “O que me faltou?” ou “Onde foi que eu errei?”, e essa é uma das armadilhas mais dolorosas de quem foi traído.

A mente, em busca de explicação, tende a transformar a dor em culpa, como se a infidelidade fosse um reflexo direto de uma falha pessoal ou da própria insuficiência.

Mas, como lembra Luiz Hanns, “nem toda infidelidade é consequência de um casamento ruim”. Muitas vezes, o que está em jogo não é a falta de amor ou de valor no outro, mas os impasses internos de quem trai, suas contradições, vazios e desejos não elaborados.

A traição, nesse sentido, fala menos sobre quem foi ferido e mais sobre quem não soube lidar com o próprio desamparo. Superar essa culpa é começar a compreender que a dor é real, mas a responsabilidade por ela não é necessariamente sua.

Por isso, o primeiro passo não é perdoar nem decidir o futuro da relação, mas reconhecer o impacto e o sentido dessa perda: o que ela desorganizou em você, que imagens de amor foram quebradas e que feridas mais antigas a dor reativou.

A mente costuma transformar a dor em culpa, mas muitas infidelidades têm origem nos impasses internos de quem trai, não em falhas da pessoa traída.

A travessia: o trabalho de luto e o encontro com o inconsciente

Toda perda exige um luto, e o amor não é exceção. Elaborar a dor da traição significa deixar morrer o vínculo tal como existia, com suas idealizações e promessas. É um processo que pode ser longo e desigual.

A psicóloga e psicanalista Alessandra Affortunati Martins explica que o amor nasce do encontro com a falta, o ponto onde não somos inteiros. “Quando o amor desperta, algo se impõe e nos desconcerta. Esse ponto de fascínio é também o que mais nos ameaça, porque nos lembra daquilo que não controlamos em nós”.

Por isso, amar é sempre arriscado, e ser traído é ver esse risco se materializar.

Na travessia, o sujeito precisa olhar para o que essa ruptura revela de si mesmo. No curso Como Ressignificar os Relacionamentos, Tatiana Paranaguá, psicóloga e diretora do Centro Junguiando Clínica e Estudo de Psicologia Analítica, lembra que “mudam os atores, mas o drama não muda”.

A repetição de padrões amorosos, ou seja, confiar demais, se anular, buscar salvação no outro, costuma ser o terreno onde o sofrimento se instala. Entender o arquétipo que nos domina é o primeiro passo para interromper a repetição.

Por isso é tão importante que nesses momentos, a pessoa não tente apenas “se distrair” da dor, mas escute o que ela está tentando dizer. O sofrimento que sentimos nos revela feridas, modos de amar que talvez sempre tenham sido desiguais ou expectativas impossíveis depositadas no outro.

A repetição de padrões amorosos, como se anular ou esperar salvação no outro, costuma ser o terreno onde o sofrimento se instala.


Ah, e lembre-se: a violência não ajuda em nada a superar uma traição.

Na verdade, só cria mais sofrimento e problemas. O que ajuda é dar espaço para entender seus sentimentos, colocar limites de forma segura e buscar apoio de pessoas de confiança ou de profissionais, como terapeutas.

Transformar a raiva e a decepção em reflexão e autocuidado é muito mais eficaz do que qualquer ação agressiva.


A terapia pode ser um espaço decisivo nesse processo. Não para “curar a dor”, mas para dar-lhe um lugar simbólico, transformando o trauma em narrativa e aprendizado. É nesse movimento que o sujeito deixa de ser apenas quem sofreu uma traição para se tornar alguém que compreende a própria história.

Aprender com nossas dores é algo fundamental para nossa constituição enquanto sujeito no mundo, pois é impossível viver sem atravessar perdas, frustrações e rupturas. Elas fazem parte do processo de nos tornarmos quem somos, pois é nas falhas, nos vazios e nos limites que se desenha a possibilidade de transformação.

A psicanálise nos lembra que o sujeito se constitui a partir da falta, e é justamente esse espaço que permite o movimento, o desejo, a criação de novos sentidos. Como aponta Tilkian, “o luto é o caminho de volta para si mesmo”!

Perdoar não é esquecer: é reconstruir um novo pacto baseado em lucidez, limites e consciência das fragilidades humanas.


Dicas para reconstruir a confiança, perdão e novos começos

Mas, como podemos nos reconstruir após uma traição? O momento em que a dor se transforma acontece quando passamos da ferida aberta para a reflexão sobre o que ocorreu.

Seja na traição de quem está ao nosso lado amorosamente, na decepção com um amigo ou em uma mágoa com um irmão ou familiar, esse processo nos leva a reconhecer sentimentos de frustração, tristeza e raiva, mas também a enxergar oportunidades de aprendizado e crescimento.

O psicólogo e psicanalista Luiz Hanns propõe três eixos para quem deseja reconstruir o vínculo após uma infidelidade:

  1. Compreender o contexto (o que aconteceu e por quê, sem negar ou minimizar);
  2. Reconhecer os sentimentos (raiva, ciúme, medo, vergonha, desejo de vingança);
  3. Reavaliar o projeto de relação (há espaço para um novo pacto?).



É possível superar uma traição e continuar o relacionamento?

Quando as pessoas envolvidas decidem continuar, é fundamental que o “novo pacto” não tente restaurar o que havia antes. Lucas Bulamah observa que a confiança não pode ser retomada como uma ilusão de segurança, mas reconstruída sobre outro alicerce, mais consciente, menos idealizado.

Isso significa aceitar que não há garantias no amor. O perdão, nesse sentido, não é um esquecimento do ato, mas um gesto de lucidez: reconhecer a complexidade do desejo humano e escolher seguir adiante, com limites e vulnerabilidades à vista.

Superar uma traição também implica recuperar a confiança em si. A autoestima ferida precisa ser acolhida sem pressa. É um processo de reatar com o próprio valor, não o valor de ser amado, mas o de existir como sujeito desejante, inteiro em sua falta.

Como diz Carol Tilkian, “o amor próprio não é uma meta de perfeição, é um exercício de autoaceitação”.

Pessoa jovem aplicando espuma de limpeza facial como parte da rotina de autocuidado
Aceitar quem você é, é o primeiro passo para viver em paz consigo mesmo - Foto de Pablo Merchan Montes/ Unsplash

O que as pesquisas revelam sobre a infidelidade

Para entender como essas percepções sobre traição ocorrem, é importante olhar para o que a ciência tem a nos dizer.

Uma pesquisa da Universidade de Denver indica que pessoas que já foram infiéis em uma relação, têm mais chances de repetirem o comportamento no próximo relacionamento.

O mesmo levantamento aponta que pessoas que já foram traídas possuem 4x mais chances de desconfiar de uma possível infidelidade de um novo parceiro, mesmo sem evidências concretas.

Em outra frente, uma pesquisa conduzida pelo aplicativo de relacionamentos extraconjugais Gleeden revelou que o Brasil ocupa o primeiro lugar em infidelidade na América Latina. Segundo o estudo, esse dado pode estar ligado ao modo como os brasileiros se relacionam, marcado por intensa convivência social, contato físico frequente e um alto número de interações pessoais e profissionais.

Esses fatores, somados à naturalização de certos comportamentos, formatos de relacionamento e à dificuldade de estabelecer limites claros, ajudam a explicar por que o tema da traição continua tão presente e complexo nas relações afetivas no país.

A traição, embora destrutiva, pode se tornar um ponto de inflexão, uma chance de repensar os modos de amar, comunicar e estabelecer vínculos.

A psicanálise ensina que o amor não é um estado, mas um processo, uma construção sempre instável entre o eu e o outro. Nesse sentido, a confiança perdida não é irrecuperável, mas jamais será a mesma.

Ela se transforma em um tipo de sabedoria afetiva: a consciência de que o amor exige risco, mas também limite; entrega, mas também individuação.

Existe um prazo para “superar” uma traição?

Não. Cada sujeito elabora a perda conforme sua história psíquica, seus recursos e o modo como pode simbolizar o acontecimento. Algumas pessoas reconstroem o vínculo; outras seguem sozinhas e descobrem novas formas de amor.

O que define a superação não é o desfecho, mas a integração da experiência: quando a dor deixa de ser ferida aberta e passa a fazer parte da narrativa de quem se tornou.

Superar não é esquecer, é costurar o que foi rasgado”, diz uma das metáforas que atravessam os cursos da Casa do Saber. E é isso mesmo: um trabalho paciente, artesanal, de reconstrução de si.

A Casa do Saber tem reunido psicanalistas e pesquisadores que olham para o amor não como um ideal, mas como uma travessia humana, com seus abismos, seus retornos e suas reinvenções.

Em última instância, superar uma traição é aprender a confiar no próprio chão. Olhar para o passado sem negar a dor, mas também sem se definir por ela, sabe? É descobrir que o amor não termina com o outro, ele recomeça, silenciosamente, em nós.

Cursos para refletir sobre traição e relacionamentos

Para quem deseja ampliar essa investigação, alguns cursos da Casa do Saber dialogam diretamente com esses aspectos, oferecendo olhares psicanalíticos, filosóficos e interdisciplinares que enriquecem o entendimento sobre vínculos, rupturas e reconstruções possíveis.

  • Traição e Confiança - Lucas Charafeddine Bulamah
    Um olhar que rompe com a visão convencional da traição como exceção, explorando a instabilidade subjetiva presente nas promessas de fidelidade e confiabilidade.

  • As Relações Amorosas e Seus Contratempos - Alessandra Affortunati Martins
    Abordagem interdisciplinar para compreender dinâmicas como sedução, poder, ciúme e ressentimento, ampliando a visão crítica sobre o amor contemporâneo.

  • Luto, Rejeição e Abandono - Carol Tilkian
    Para quem deseja compreender e elaborar os impactos emocionais de rupturas, rejeições e padrões repetitivos nas relações afetivas.

  • À Procura da Felicidade Conjugal - Luiz Hanns
    Um guia para fortalecer competências no convívio a dois, negociar limites e identificar o que pode - e o que não pode - ser transformado na relação.

  • Guia Prático das Emoções para Relacionamentos - Nadja Moraes
    Curso prático para ampliar repertório emocional, entender angústias e desenvolver novas formas de comunicação afetiva em diferentes contextos de vida.

  • Como Ressignificar os Relacionamentos? - Tatiana Paranaguá
    Um mergulho psicológico para compreender padrões que se repetem nas relações e reconhecer dinâmicas internas que moldam nossos encontros afetivos.

Perguntas frequentes sobre como superar uma traição

Por que a traição dói tanto?

A traição rompe não apenas um acordo, mas um pacto simbólico de cuidado e lealdade. Ela abala a confiança e a imagem que a pessoa tinha de si dentro da relação, gerando desamparo e desorganização emocional. A dor surge porque aquilo que sustentava o vínculo deixa de fazer sentido e o sujeito perde o lugar que ocupava no “nós”.


A culpa da traição é de quem foi traído?

Muitas infidelidades têm origem em impasses internos de quem trai, e não em falhas da pessoa traída. Entender isso é fundamental para diminuir o autoculpabilização e iniciar o processo de reconstrução emocional.


Como começa o processo de superação de uma traição?

A superação começa pelo reconhecimento da dor e do impacto psíquico da ruptura. É preciso atravessar um trabalho de luto, compreender o que se perdeu e escutar o que a dor revela sobre padrões afetivos, expectativas e modos de amar.


É possível reconstruir um relacionamento após uma traição?

Sim, mas essa reconstrução não pode tentar restaurar o que existia antes. É necessário criar um novo pacto, mais consciente e menos idealizado. Perdoar não significa esquecer, é reconhecer a complexidade do desejo humano e estabelecer novos limites e condições.


A traição pode revelar padrões repetitivos nos relacionamentos?

Sim. Muitas pessoas repetem padrões amorosos que geram sofrimento, como confiar demais, se anular ou buscar salvação no outro. Compreender esses padrões e os arquétipos que os sustentam é essencial para interromper repetições dolorosas.


Quanto tempo leva para superar uma traição?

Não existe prazo. Cada pessoa elabora a perda conforme sua história emocional e seus recursos psíquicos. Superar não é esquecer, mas integrar a experiência e costurar o que foi rasgado, encontrando um novo sentido para si e para o vivido.


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Referências:

  • Rokach, A., & Chan, S. H. (2023). Love and Infidelity: Causes and Consequences. International journal of environmental research and public health, 20(5), 3904. https://doi.org/10.3390/ijerph20053904.

  • Knopp, K., Scott, S., Ritchie, L. et al. Once a Cheater, Always a Cheater? Serial Infidelity Across Subsequent Relationships. Arch Sex Behav 46, 2301–2311 (2017). https://doi.org/10.1007/s10508-017-1018-1.

  • Cursos da Casa do Saber: Traição e Confiança (Lucas Bulamah), Relações Amorosas (Alessandra Martins), Casais: à Procura da Felicidade Conjugal (Luiz Hanns), Luto, Rejeição e Abandono (Carol Tilkian), Como Ressignificar as Relações (Tatiana Paranaguá).
Artigo escrito por
Camila Fortes
Pesquisadora. Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde do ICICT/FIOCRUZ/RJ.